University of Illinois (Urbana and Champaign)
A quem se destina Estudantes e pesquisadores, brasileiros ou de outros países, desde que interessados em pesquisas focadas no Brasil. Objetivo Fomentar o desenvolvimento de um centro de pesquisas sobre o Brasil em uma universidade de excelente padrão acadêmico, promovendo o intercâmbio com faculdades e instituições brasileiras.
Como funciona Um fundo patrimonial criado em 2009 permitiu a abertura do centro de estudos, que irá oferecer bolsas a alunos e pesquisadores de diversas áreas, cujos estudos tiverem temas brasileiros como foco. Também estão previstos seminários e conferências internacionais sobre tópicos relacionados ao país. A inauguração do centro aconteceu em outubro de 2009.
Mais informações www.clacs.illinois.edu/lemann
Mensagem
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
A Dinâmica da Colaboração
Trabalho realizado no 1º Semestre, Web 2.0, Prof. Bruno Magalhães- CECIERJ
domingo, 4 de setembro de 2011
Guia para uma vida compartilhada
Peguei o título, e a ideia, da revista Fast Company, uma das parceiras da HSM Management. Trata-se de uma matéria muito interessante sobre a economia do compartilhamento, The Sharing Economy, que representaria, potencialmente, o fim do hiperconsumo. Há sites indicativos de uma tendência nesse sentido, de fato. Eles existem também no Brasil, mas, nos Estados Unidos, até por conta da crise, estão se alastrando razoavelmente rápido. E, se essa economia vingar, sua vida poderá ser a de tomar café da manhã com produtos plantados num terreno seu, depois vestir-se com roupas de segunda mão etc. etc Eu listei alguns sites que aparecem na Fast Company – vale a pena conhecer:
SHAREDEARTH.COM
Um dá o terreno, o outro planta e eles dividem a colheita.
THREDUP.COM
Para intercâmbio de roupas infantis e brinquedos.
ZIMRIDE.COM
Organiza o transporte compartilhado (a carona) para profissionais e estudantes.
FREECYCLE.ORG
Para reciclagem.
AIRBNB.COM
Para uns alugarem casas, quartos, iates dos outros.
LIQUIDSPACE.COM
Para encontrar – e compartilhar – espaços de trabalho.
RELAYRIDES.COM
Para compartilhamento de carros com os vizinhos (o mesmo carro, usuários distintos em horários distintos).
TASKRABBIT.COM
Casa a demanda de serviço com um fornecedor (o “rabbit”, coelho) – ah, como eu queria isso para encontrar um eletricista minimamente competente!
NEIGHBORGOODS.NET
Para vizinhos compartilharem tudo, de cortadores de grama a equipamentos esportivos.
GOBBLE.COM
Refeições compartilhadas entre vizinhos -meio que uma marmita entre amigos. Quem tiver um vizinho que cozinhe bem (tipo o Alex Atalla de vizinho) está feito.
BOOKCROSSING.COM
Para troca de livros. Tipo clube do livro?
LENDINGCLUB.COM
Calma, esse não é para dinheiro compartilhado. É para o dinheiro trocar provisoriamente de mãos a custos bem menores (coisas que costumamos fazer em família…)
No Brasil, tem disso para roupa de adultos. Porém é mais venda do que troca, escambo, compartilhamento. Ou estou enganada?
Outra coisa: a gente aprende, quando estuda economia, que quando surgiu a moeda, substituindo o escambo, isso representou uma evolução absurda, social inclusive. E aí? Essa tendência seria “retrocesso”?
PS- Preciso compartilhar uma aflição com vocês: “share” é um verbo tão fácil, gruda em tudo, vai com qualquer palavra; já “compartilhar”… É de lascar, diz que não.
Fonte: The Sharing Economy
Com influência dos games e da internet, os livros para tablets oferecem uma nova experiência de leitura
Publicado originalmente por Danilo Venticinque em Época
Na passagem da era analógica para a digital, poucos produtos mudaram tão pouco quanto o livro. Os e-books já são um sucesso, sem dúvida: nos Estados Unidos, o formato digital já é o mais vendido, superando os livros de capa dura, brochura e de bolso. Mas, até agora, dispositivos como o leitor digital Kindle, da Amazon, oferecem ao leitor uma experiência quase idêntica à dos livros de papel: letras pretas sobre um fundo branco, como o alemão Johannes Gutenberg concebeu há mais de cinco séculos e meio. A nova safra de livros para o iPad pretende revolucionar esse formato e transformar o hábito da leitura, incorporando vídeo e games aos textos e usando a capacidade multimídia dos tablets.
Nos últimos meses, dois grandes lançamentos interativos despertaram a atenção (e a euforia) das editoras para o potencial dos livros interativos. No campo da não ficção, o grande destaque foi o aplicativo Our Choice, continuação do documentário Uma verdade inconveniente, do ex-vice-presidente dos Estados Unidos Al Gore. Desenvolvido por Gore em parceria com o designer Mike Matas, Our Choice é organizado em capítulos, como um livro tradicional. Mas cada capítulo contém uma série de conteúdos interativos, áudio e fotos em alta definição, que podem ser ampliadas pelo leitor com um toque dos dedos. Os 19 capítulos de Our Choice também têm embutidos mais de uma hora de documentário. Um filme dentro do livro.
No campo da literatura, o aplicativo The Waste Land, baseado no poema homônimo de T.S. Eliot, demonstrou que mesmo textos consagrados têm algo a ganhar com a chegada da interatividade. Para desbravar um dos maiores e mais enigmáticos poemas do sécu-lo XX, o leitor conta com explicações para cada verso ao alcance dos dedos, sem prejudicar o fluxo da leitura. Entrevistas com gran-des escritores e críticos literários ajudam a esclarecer a importância do poema e do autor para a história da literatura. Os leitores que já são conhecedores e entusiastas de Eliot encontram outros atrativos, como duas gravações do poema na voz do autor e uma repro-dução de anotações feitas pelo poeta Ezra Pound nos originais de Eliot. O aplicativo foi criado em uma parceria da empresa de con-teúdo digital Touch Press com a editora britânica Faber & Faber. “‘The Waste Land’ é o poema ideal para ser transformado em apli-cativo porque é um texto curto sobre o qual há muito a ser dito”, afirma o cientista americano Theodore Gray, um dos fundadores da Touch Press. “Nós acreditamos que, acessando o conteúdo do aplicativo, o leitor vai compreender melhor e admirar mais o texto de Eliot do que se tivesse acesso a ele apenas no papel.”
Para textos clássicos como o de Eliot, reunir conteúdo multimídia e anotações de críticos parece ser a solução ideal para cativar o público no iPad. Mas há um limite para o grau de interatividade que deve ser oferecido ao leitor. Seria temerário transformar um texto consagrado em game ou infográfico 3D, sob o risco de deturpar a obra. Por isso, editoras interessadas em explorar ao máximo as funções multimídia dos tablets passaram a operar também do modo inverso. Além de converter para o formato digital textos já publicados no papel, a Touch Press encomenda a autores textos inéditos, criados exclusivamente para se adequar ao enorme poten-cial do conteúdo interativo.
O exemplo mais bem-sucedido desse modelo é o aplicativo Solar System, do astrônomo Marcus Chown, consultor da revista New Scientist. Para desenvolver o livro, foi criada uma equipe multidisciplinar de designers e programadores, na qual o autor era apenas mais um elemento. “Como autor de livros de papel, costumava ter controle total”, afirma Chown. “Trabalhar em Solar System foi uma experiência totalmente diferente. Alguns assuntos não en-traram por falta de imagens atraentes. Outros, que eu não colocaria no livro, entraram por render uma boa experiência interativa.” Os leitores parecem ter gostado: lançado no final do ano passado, o aplicativo já vendeu mais de 50 mil cópias por US$ 13,99 e ganhou versões em japonês e alemão.
Apesar da reação surpresa e entusiasmada do público e do mercado aos aplicativos recém-lançados, a história do livro interativo começou muito antes dos tablets. Na década de 1990, o americano Bob Stein foi um dos fundadores da Voyager, uma empresa que criava livros interativos em CD-ROM. Entre seus principais lançamentos estava a versão multimídia de O parque dos dinossauros. O livro criou burburinho na ocasião, mas a empreitada não foi bem-sucedida. O motivo? “As pessoas não estavam interessadas em ler textos longos na tela do computador, e a chegada da internet e seu conteúdo gratuito transformou os CD-ROMs em mau negócio”, diz Stein.
Agora, o cenário parece ter mudado. A leitura nos tablets é bem mais confortável que na tela do computador e a venda de conte-údo em lojas virtuais como a Apple Store barateia e facilita a compra das obras. Stein faz uma ressalva: “Os produtos que estão sendo lançados agora ainda têm um conceito parecido com os livros tradicionais e um sistema de pagamento semelhante. No futu-ro, as pessoas vão querer livros que envolvam interação social e estarão mais inclinadas a assinar serviços do que a pagar por produ-tos individuais”. Na corrida para a interatividade, alguns gêneros de livros saíram na frente. Usuários da loja de aplicativos da Apple já encontram dezenas de aplicativos infantis, que misturam áudio, vídeo e elementos de games ao texto. É uma estratégia das edito-ras para fisgar a atenção de um público acostumado a consumir conteúdo interativo desde os primeiros anos de vida. Um dos pri-meiros aplicativos do gênero em português é A Menina do Narizinho Arrebitado, baseado no livro homônimo de Monteiro Lobato. “Um livro interativo não é um jogo, mas torna a leitura mais divertida”, afirma Mauro Palermo, diretor da Globo Livros. “Toda a parte lúdica está ligada inteiramente ao texto.” Para a Bienal do Rio de Janeiro, em setembro, a editora deverá lançar outro título para iPad. A divisão infantil da Companhia das Letras também promete um lançamento para o segundo semestre.
Outra área em que os livros interativos já fazem sucesso é a educação. Nos Estados Unidos, a editora digital Inkling revolucionou o ensino de biologia ao transformar o Brooker biology, um livro-texto de 1.438 páginas, em uma série de aplicativos (um para cada capítulo) com infográficos em 3D, vídeos e testes interativos de aprendizado. Fundada por Matt MacInnis, um engenheiro formado em Harvard e ex-funcionário da Apple, a empresa quer chegar aos 100 aplicativos até agosto. Seus produtos já foram adotados por universidades consagradas, como a Brown.
Na corrida rumo à interatividade, os livros infantis e acadêmicos saíram na frente
No Brasil, os livros digitais chegaram à educação infantil com O cidadão de papel, um livro de Gilberto Dimenstein sobre direitos humanos muito adotado em salas de aula. A versão digital traz vídeos, infográficos e tabelas com estatísticas que são atualizadas automaticamente. “À medida que as escolas e universidades passarem a adotar esse tipo de aplicativo e subsidiar tablets para seus alunos, as editoras de livros educativos terão mais oportunidades”, afirma Youssef Mourad, da Digital Pages, empresa responsável pela migração deO cidadão de papel para o iPad.
Apesar das experiências de sucesso em alguns gêneros, outros ainda são um desafio para o mercado. “Não sabemos o que fazer para transformar um romance em algo interativo”, afirma Theodore Gray, da Touch Press. Para ele, os romances são livros que continuarão a fazer sucesso em leitores digitais como o Kindle, sem dar origem a aplicativos multimídia. A previsão de Bob Stein é mais sombria: “Se os romances não se tornarem interativos, correrão o risco de se tornar um gênero pouco popular, como a poesia”. Pode ser, mas se o cinema e os videogames não tornaram obsoleta a experiência clássica de leitura, é improvável que a fusão dos dois em livros digitais consiga fazê-lo.
A crença de que a felicidade é um direito tem tornado despreparada a geração mais preparada
Ao conviver com os bem mais jovens, com aqueles que se tornaram adultos há pouco e com aqueles que estão tateando para virar gente grande, percebo que estamos diante da geração mais preparada – e, ao mesmo tempo, da mais despreparada. Preparada do ponto de vista das habilidades, despreparada porque não sabe lidar com frustrações. Preparada porque é capaz de usar as ferramentas da tecnologia, despreparada porque despreza o esforço. Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, despreparada porque desconhece a fragilidade da matéria da vida. E por tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o patrimônio da felicidade. E não foi ensinada a criar a partir da dor.
Há uma geração de classe média que estudou em bons colégios, é fluente em outras línguas, viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à tecnologia. Uma geração que teve muito mais do que seus pais. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem prontos – bastaria apenas que o mundo reconhecesse a sua genialidade.
Tenho me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continuação de suas casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a “injustiça” e boa parte se emburra e desiste.
Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem que a vida é construção – e para conquistar um espaço no mundo é preciso ralar muito. Com ética e honestidade – e não a cotoveladas ou aos gritos. Como seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que anuncia a eles uma nova não lá muito animadora: viver é para os insistentes.
Por que boa parte dessa nova geração é assim? Penso que este é um questionamento importante para quem está educando uma criança ou um adolescente hoje. Nossa época tem sido marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. E tenho testemunhado a angústia de muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”. Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos e protegê-los de todos os perrengues – sem esperar nenhuma responsabilização nem reciprocidade.
É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais já se tornassem devedores. Para estes, frustrar os filhos é sinônimo de fracasso pessoal. Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante que os filhos compreendam como parte do processo educativo duas premissas básicas do viver, a frustração e o esforço? Ou a falta e a busca, duas faces de um mesmo movimento? Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com os limites tanto de sua condição humana como de suas capacidades individuais?
Nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade. O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “fulano é esforçado” é quase uma ofensa. Ter de dar duro para conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bacana é o cara que não estudou, passou a noite na balada e foi aprovado no vestibular de Medicina. Este atesta a excelência dos genes de seus pais. Esforçar-se é, no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar seu lugar no país.
Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforço, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia e, como percebo em muitos jovens, uma espécie de traição ao futuro que deveria estar garantido. Pais e filhos têm pagado caro pela crença de que a felicidade é um direito. E a frustração um fracasso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”.
Basta andar por esse mundo para testemunhar o rosto de espanto e de mágoa de jovens ao descobrir que a vida não é como os pais tinham lhes prometido. Expressão que logo muda para o emburramento. E o pior é que sofrem terrivelmente. Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não têm o menor preparo para lidar com a dor e as decepções. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer.
A questão, como poderia formular o filósofo Garrincha, é: “Estes pais e estes filhos combinaram com a vida que seria fácil”? É no passar dos dias que a conta não fecha e o projeto construído sobre fumaça desaparece deixando nenhum chão. Ninguém descobre que viver é complicado quando cresce ou deveria crescer – este momento é apenas quando a condição humana, frágil e falha, começa a se explicitar no confronto com os muros da realidade. Desde sempre sofremos. E mais vamos sofrer se não temos espaço nem mesmo para falar da tristeza e da confusão.
Me parece que é isso que tem acontecido em muitas famílias por aí: se a felicidade é um imperativo, o item principal do pacote completo que os pais supostamente teriam de garantir aos filhos para serem considerados bem sucedidos, como falar de dor, de medo e da sensação de se sentir desencaixado? Não há espaço para nada que seja da vida, que pertença aos espasmos de crescer duvidando de seu lugar no mundo, porque isso seria um reconhecimento da falência do projeto familiar construído sobre a ilusão da felicidade e da completude.
Quando o que não pode ser dito vira sintoma – já que ninguém está disposto a escutar, porque escutar significaria rever escolhas e reconhecer equívocos – o mais fácil é calar. E não por acaso se cala com medicamentos e cada vez mais cedo o desconforto de crianças que não se comportam segundo o manual. Assim, a família pode tocar o cotidiano sem que ninguém precise olhar de verdade para ninguém dentro de casa.
Se os filhos têm o direito de ser felizes simplesmente porque existem – e aos pais caberia garantir esse direito – que tipo de relação pais e filhos podem ter? Como seria possível estabelecer um vínculo genuíno se o sofrimento, o medo e as dúvidas estão previamente fora dele? Se a relação está construída sobre uma ilusão, só é possível fingir.
Aos filhos cabe fingir felicidade – e, como não conseguem, passam a exigir cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais, já que estas são as mais fáceis de alcançar – e aos pais cabe fingir ter a possibilidade de garantir a felicidade, o que sabem intimamente que é uma mentira porque a sentem na própria pele dia após dia. É pelos objetos de consumo que a novela familiar tem se desenrolado, onde os pais fazem de conta que dão o que ninguém pode dar, e os filhos simulam receber o que só eles podem buscar. E por isso logo é preciso criar uma nova demanda para manter o jogo funcionando.
O resultado disso é pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida inteira, mas se desconhecem. E, portanto, estão perdendo uma grande chance. Todos sofrem muito nesse teatro de desencontros anunciados. E mais sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo. E acreditar que se pode tudo é o atalho mais rápido para alcançar não a frustração que move, mas aquela que paralisa.
Quando converso com esses jovens no parapeito da vida adulta, com suas imensas possibilidades e riscos tão grandiosos quanto, percebo que precisam muito de realidade. Com tudo o que a realidade é. Sim, assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem. Não é complicado porque você vai ter competidores com habilidades iguais ou superiores a sua, mas porque se tornar aquilo que se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que a gente vira gente grande.
Seria muito bacana que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um Ipad é dizer de vez em quando: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua”. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: “Olha, meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou tentando descobrir”. Porque fingir que está tudo bem e que tudo pode significa dizer ao seu filho que você não confia nele nem o respeita, já que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a matéria da existência. É tão ruim quanto ligar a TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbrio doméstico possa ser dito.
Agora, se os pais mentiram que a felicidade é um direito e seu filho merece tudo simplesmente por existir, paciência. De nada vai adiantar choramingar ou emburrar ao descobrir que vai ter de conquistar seu espaço no mundo sem nenhuma garantia. O melhor a fazer é ter a coragem de escolher. Seja a escolha de lutar pelo seu desejo – ou para descobri-lo –, seja a de abrir mão dele. E não culpar ninguém porque eventualmente não deu certo, porque com certeza vai dar errado muitas vezes. Ou transferir para o outro a responsabilidade pela sua desistência.
Crescer é compreender que o fato de a vida ser falta não a torna menor. Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é melhor não perder tempo se sentindo injustiçado porque um dia ela acaba.
(Eliane Brum)
Tenho me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continuação de suas casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a “injustiça” e boa parte se emburra e desiste.
Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem que a vida é construção – e para conquistar um espaço no mundo é preciso ralar muito. Com ética e honestidade – e não a cotoveladas ou aos gritos. Como seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que anuncia a eles uma nova não lá muito animadora: viver é para os insistentes.
Por que boa parte dessa nova geração é assim? Penso que este é um questionamento importante para quem está educando uma criança ou um adolescente hoje. Nossa época tem sido marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. E tenho testemunhado a angústia de muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”. Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos e protegê-los de todos os perrengues – sem esperar nenhuma responsabilização nem reciprocidade.
É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais já se tornassem devedores. Para estes, frustrar os filhos é sinônimo de fracasso pessoal. Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante que os filhos compreendam como parte do processo educativo duas premissas básicas do viver, a frustração e o esforço? Ou a falta e a busca, duas faces de um mesmo movimento? Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com os limites tanto de sua condição humana como de suas capacidades individuais?
Nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade. O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “fulano é esforçado” é quase uma ofensa. Ter de dar duro para conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bacana é o cara que não estudou, passou a noite na balada e foi aprovado no vestibular de Medicina. Este atesta a excelência dos genes de seus pais. Esforçar-se é, no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar seu lugar no país.
Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforço, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia e, como percebo em muitos jovens, uma espécie de traição ao futuro que deveria estar garantido. Pais e filhos têm pagado caro pela crença de que a felicidade é um direito. E a frustração um fracasso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”.
Basta andar por esse mundo para testemunhar o rosto de espanto e de mágoa de jovens ao descobrir que a vida não é como os pais tinham lhes prometido. Expressão que logo muda para o emburramento. E o pior é que sofrem terrivelmente. Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não têm o menor preparo para lidar com a dor e as decepções. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer.
A questão, como poderia formular o filósofo Garrincha, é: “Estes pais e estes filhos combinaram com a vida que seria fácil”? É no passar dos dias que a conta não fecha e o projeto construído sobre fumaça desaparece deixando nenhum chão. Ninguém descobre que viver é complicado quando cresce ou deveria crescer – este momento é apenas quando a condição humana, frágil e falha, começa a se explicitar no confronto com os muros da realidade. Desde sempre sofremos. E mais vamos sofrer se não temos espaço nem mesmo para falar da tristeza e da confusão.
Me parece que é isso que tem acontecido em muitas famílias por aí: se a felicidade é um imperativo, o item principal do pacote completo que os pais supostamente teriam de garantir aos filhos para serem considerados bem sucedidos, como falar de dor, de medo e da sensação de se sentir desencaixado? Não há espaço para nada que seja da vida, que pertença aos espasmos de crescer duvidando de seu lugar no mundo, porque isso seria um reconhecimento da falência do projeto familiar construído sobre a ilusão da felicidade e da completude.
Quando o que não pode ser dito vira sintoma – já que ninguém está disposto a escutar, porque escutar significaria rever escolhas e reconhecer equívocos – o mais fácil é calar. E não por acaso se cala com medicamentos e cada vez mais cedo o desconforto de crianças que não se comportam segundo o manual. Assim, a família pode tocar o cotidiano sem que ninguém precise olhar de verdade para ninguém dentro de casa.
Se os filhos têm o direito de ser felizes simplesmente porque existem – e aos pais caberia garantir esse direito – que tipo de relação pais e filhos podem ter? Como seria possível estabelecer um vínculo genuíno se o sofrimento, o medo e as dúvidas estão previamente fora dele? Se a relação está construída sobre uma ilusão, só é possível fingir.
Aos filhos cabe fingir felicidade – e, como não conseguem, passam a exigir cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais, já que estas são as mais fáceis de alcançar – e aos pais cabe fingir ter a possibilidade de garantir a felicidade, o que sabem intimamente que é uma mentira porque a sentem na própria pele dia após dia. É pelos objetos de consumo que a novela familiar tem se desenrolado, onde os pais fazem de conta que dão o que ninguém pode dar, e os filhos simulam receber o que só eles podem buscar. E por isso logo é preciso criar uma nova demanda para manter o jogo funcionando.
O resultado disso é pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida inteira, mas se desconhecem. E, portanto, estão perdendo uma grande chance. Todos sofrem muito nesse teatro de desencontros anunciados. E mais sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo. E acreditar que se pode tudo é o atalho mais rápido para alcançar não a frustração que move, mas aquela que paralisa.
Quando converso com esses jovens no parapeito da vida adulta, com suas imensas possibilidades e riscos tão grandiosos quanto, percebo que precisam muito de realidade. Com tudo o que a realidade é. Sim, assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem. Não é complicado porque você vai ter competidores com habilidades iguais ou superiores a sua, mas porque se tornar aquilo que se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que a gente vira gente grande.
Seria muito bacana que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um Ipad é dizer de vez em quando: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua”. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: “Olha, meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou tentando descobrir”. Porque fingir que está tudo bem e que tudo pode significa dizer ao seu filho que você não confia nele nem o respeita, já que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a matéria da existência. É tão ruim quanto ligar a TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbrio doméstico possa ser dito.
Agora, se os pais mentiram que a felicidade é um direito e seu filho merece tudo simplesmente por existir, paciência. De nada vai adiantar choramingar ou emburrar ao descobrir que vai ter de conquistar seu espaço no mundo sem nenhuma garantia. O melhor a fazer é ter a coragem de escolher. Seja a escolha de lutar pelo seu desejo – ou para descobri-lo –, seja a de abrir mão dele. E não culpar ninguém porque eventualmente não deu certo, porque com certeza vai dar errado muitas vezes. Ou transferir para o outro a responsabilidade pela sua desistência.
Crescer é compreender que o fato de a vida ser falta não a torna menor. Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é melhor não perder tempo se sentindo injustiçado porque um dia ela acaba.
(Eliane Brum)
Jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê(Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua(Globo).
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